ASPECTOS CULTURAIS

OS KAINGÁNG DA T.I. APUCARANINHA -REGIÃO DE LONDRINA-Pr.

Os Kaingáng formam um numeroso grupo indígena do Brasil Meridional. Pertencentes ao tronco lingüístico Jê, ocupam os estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Representam um contingente populacional numericamente importante no sul do país, somando aproximadamente 25.000 pessoas. (ISA/2000). No estado do Paraná somam um total de 10.000 indivíduos. Na T.I. Apucaraninha representam uma população de 1350 pessoas, todos falantes do dialeto Kaingáng.

Entre os atributos associados à sua identidade étnica estão: 1) nominação, 2) Descendência patrilinear, 3)Filiação Clânica. Formam uma sociedade dual dividida em metades exogâmicas, personificadas nos heróis míticos Kamé e Kairu, que se opõem e se complementam. Cada metade possui uma pintura corporal distinta. A metade Kamé possui pintura de riscos e a Kairu, círculos.

A metade Kamé esta relacionada ao oeste e a marca de pintura facial apresenta motivos compridos (ra teí). Os Kairu, relacionados ao leste, apresenta a pintura facial de motivos de círculos (ro rôr). A metade kamé apresenta as seções kamé e wonheitky e a metade kairu, as seções kairu e votor. Entre os Kaingáng da T. I. Apucaraninha, as pinturas que apresentam risco(riscados) eles as denominam de reroio e as de círculos (pintados) de recutú.

No sistema Kaingáng, a filiação a uma metade é definida patrilateralmente, ou seja, os filhos de ambos os sexos vão pertencer à metade do pai e não de sua mãe. Este procedimento continuo é que vai estabelecer o caráter patrilinear da sociedade kaingáng. Seguindo este padrão, os filhos (as) pertencem à mesma seção de seu pai e devem casar repetindo o padrão de aliança contraído por seu pai. Neste sentido filhos e filhas devem casar com a mesma metade de onde veio a sua mãe.

Outro aspecto importante da organização sócio/cultural deste grupo está ligado as praticas de sua medicina ancestral. O sistema médico Kaingáng engloba vários elementos ligados à natureza, sociedade e sobrenatureza e, estão centrados na figura de determinadas pessoas que possuem um saber especializado em diferentes níveis. Cada especialista existente entre o grupo utiliza uma terapia preventiva e curativa baseada em remédios do mato com a utilização de raízes, casca de arvores, banha de determinados animais entre outros. Para os Kaingáng a forma com que concebem a saúde, doença (kaga) e cura, está intimamente interligado com fatores culturais e cosmológicos da sociedade a qual estão inseridos.

São habitantes das terras da região de Londrina muito antes da chegada do "homem branco" nesta região. Foram "colonizados e pacificados" no período de 1.770 a 1.930. A partir daí, tiveram seus territórios expropriados e o contato se estabeleceu de forma desigual. Perderam sua autonomia enquanto grupo, viram-se privados de seus saberes e de seus amplos territórios de caça e pesca, passando a viver em aldeamentos controlados por administradores brancos, missionários e civis.

 

OS KAINGANG E SUA CULTURA MATERIAL

Atualmente a economia dos Kaingáng, baseia-se em três atividades fundamentais: agricultura de subsistência, assalariamento temporário e o comércio de artesanato. Este sistema foi deflagrado na medida em que os avanços da frente de expansão da economia brasileira sobre o entorno da Terra Indígena se estabeleceu, ocasionando de forma contundente grandes transformações sócio/culturais, ambientais, epidemiológicas e econômicas no interior desta sociedade.

Desde então, frente às novas necessidades de consumo que lhes foram impostas pelo contato com a sociedade moderna, o artesanato que servia para uso interno e doméstico começou a ser confeccionado para venda comercial. A comercialização de balaios e cestas surgiu como uma alternativa da garantia de sobrevivência e sua fabricação para este fim tem sido cada vez mais intensificado, constituindo uma importante fonte de obtenção de renda para as famílias Kaingáng.

São as mulheres Kaingáng que detém o saber e a técnica dos trançados, ensinando às suas filhas todo o conhecimento sobre esta arte. Habilidosas na produção de cestos e balaios são elas que cuidam dos afazeres domésticos e da educação de seus filhos. Cabendo às meninas, desde muito cedo, a responsabilidade de cuidar de seus irmãos menores e de outros afazeres da casa. As mulheres, além de permanecerem a maior parte do tempo dedicadas a produção de seus trançados, ainda caminham longas distâncias dentro da aldeia para visitar seus roçados, onde plantam batata doce, abóbora e feijão. É comum também encontra-las caminhando em direção aos rios carregando varas e anzóis para realizar suas pescarias, atividade esta muito apreciada por elas. É delas também a responsabilidade de buscar a taquara (vãn), matéria-prima utilizada na confecção dos trançados.

A variedade da cultura material Kaingáng foi altamente reduzida ao longo do contato com a sociedade envolvente, ao mesmo tempo teve que ser estrategicamente recriada e reinventada para o comércio, fonte de renda importante para as famílias. Atualmente são as cestarias (balaios, cestos e peneiras) que compõem o acervo da cultura material Kaingáng e são destinadas ao mercado consumidor. As flautas, trompetas, colares de ossos, adornos de plumagem, panelas de cerâmicas e flechas, objetos que eram confeccionados para uso doméstico, estes já não são mais fabricados. Eram também exímios na fabricação de cordoaria e tecelagem. As cordas eram feitas de fibra de urtiga e serviam para amarrar suas flechas.

Confeccionavam também suas próprias roupas com fibras vegetais. A tinta que usam para colorir os seus trançados era extraída do kó-mrur (cipó imbé), da casca do pinheiro, da fruta do palmito e de raízes especiais. Atualmente ornamentam ou dão cores às suas cestarias com tintas industrializadas, sendo que a mais comum usada entre eles é a anilina.

A taquara (vãn), matéria prima básica utilizada na confecção dos balaios, sempre teve uma utilidade muito importante entre os Kaingáng. No passado era usada para a fabricação de esteiras, cuja função servia para dividir suas casas e para carregar e enterrar os seus mortos. Os atuais Kaingáng, assim como os antigos, confeccionam seus objetos com uma variedade de motivos geométricos.


taquara

Desde o final do século XIX e meados do século XX, o que restou da cultura material Kaingáng, tem proporcionado uma alternativa de renda para as famílias, sendo que o dinheiro apurado tem sido revertido na aquisição de diversos bens, tais como: aparelhos de tv, tanquinho de lavar roupas e vários alimentos industrializados. Além deste comercio, a produção em grande escala do artesanato constitui-se também em um valoroso processo de reafirmação étnico-cultural. A maior expressão artística dos Kaingáng está centrada na confecção de suas cestarias. É através dela que se manifesta a marca de seu estilo grupal e que se reafirma a herança cultural desse povo, além de preservar sua identidade étnica. Lembrar que os objetos são confeccionados e comercializados no mercado informal.

A Artesã Kaingáng imprime, através dos desenhos geométricos estampados em suas cestarias, a marca da pintura clânica da metade a qual pertence. Os desenhos gráficos que aparecem nas cestarias são carregados de significação, pois estão intimamente relacionados há um contexto mais amplo do quadro sociocultural e cosmológico deste grupo.

 

 

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