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PROJETO SOBRE O USO DE ALCOOL E ALCOOLISMO ENTRE
OS KAINGÁNG
Desde o ano de 2000 iniciamos um trabalho
junto a comunidade Kaingáng da T.I. Apucaraninha,
visando a redução os danos em relação
ao uso abusivo de bebidas alcoólicas entre esta
população. A realização
de um diagnóstico epidemiológico possibilitou
conhecer a situação sócio-econômica
das famílias das pessoas em risco em relação
ao uso abusivo de álcool e permitiu também
conhecer a intensidade do problema o que possibilitou
o direcionamento das ações.
De tal relevância neste processo
foi à realização do inquérito
antropológico que permitiu conhecer o contexto
em que se dava o uso de bebidas, estilos e padrões
e as diferentes formas e significados do uso da bebida
para cada pessoa. Este inquérito demonstrou que
os fatores sociais, culturais, históricos e de
mudanças estão intimamente relacionados
com o modo de beber deste grupo na atualidade.
Este projeto junto aos Kaingáng
objetiva além da intervenção e
da prevenção em relação
ao problema,busca acima de tudo contribuir para o desenvolvimento
de uma política para a saúde mental e
alcoolismo entre os povos indígenas dentro da
perspectiva intercultural com a construção
de metodologias diferenciadas que possam proporcionar
um diagnóstico quantitativo e qualitativo, produção
de conhecimento para uma melhor intervenção
sobre a questão partindo da referência
os três eixos: pesquisa, prevenção
e intervenção (pesquisa-ação).
O enfoque que vem sendo dado neste
trabalho tanto na prevenção quanto nas
ações curativas são por métodos
culturalmente apropriados, com o envolvimento da comunidade,
respeito aos seus saberes e práticas tradicionais
e principalmente com comprometimento desta equipe em
desenvolver ações que possam reduzir o
uso de álcool dentro de uma perspectiva interdisciplinar.
Assim, destacamos a importância
da antropologia e do papel do antropólogo neste
projeto que além de assessorar o grupo, tem buscado
a compreender o fenômeno sobre o uso abusivo de
álcool e/ou alcoolismo nas diversas esferas:
social, cultural, cosmológica, simbólica,
histórica á partir de uma pesquisa qualitativa
(método etnográfico) o que tem possibilitado
reconhecer os vários significados "do beber"
para este grupo indígena e permitido direcionamento
das ações. Reconhecer os fatores que estão
imersos em domínios culturais e contextos sociais
particulares ligados ao uso de bebidas tem apontado
a direção para enfrentamento do problema.
. O trabalho com ações
de prevenção: construindo o projeto com
a comunidade.
O envolvimento de representantes indígenas (lideranças
políticas recentes e tradicionais, especialistas
de cura, entre outros) cujo propósito é
estabelecer um debate sobre o uso de bebidas alcoólicas
na tentativa de conhecer como o grupo se relaciona com
as bebidas e as formas de controle e intervenção
usuais dentro da comunidade. É importante, neste
caso, saber ouvir as narrativas e detectar se o uso
de bebidas alcoólicas e alcoolismo consiste em
um problema; e qual a dimensão que o mesmo assume
dentro do grupo.
Para o estabelecimento de ações
em relação ao uso abusivo de álcool
e alcoolismo primordialmente deve-se envolver a comunidade
em questão, pois, sem a participação
desta, nenhum programa terá possibilidade de
ser bem sucedido.
Lembramos ainda a importância
das ações de prevenção,
principalmente entre os mais jovens. Neste caso, com
ênfase na educação, principalmente
com atividades pedagógicas e desportivas no sentido
de orientar os jovens para que não sejam usuários
de bebidas alcoólicas e outras drogas. As orientações
e as informações educativas sobre as conseqüências
do uso abusivo do álcool são necessárias
e essenciais para o trabalho de prevenção.
Neste sentido, destacamos algumas atividades
e resultados que vem sendo desenvolvido junto aos Kaingáng
objetivando minimizar os riscos em relação
ao uso abusivo de álcool nesta população.
Sugerimos também que estas ações
possam ser ampliadas para os outros grupos indígenas.
Lembrando ainda que reduzir danos em projetos desta
natureza demanda um longo processo.
1- Estabelecimento de Oficinas
de prevenção e de capacitação
sobre o problema do uso de bebidas alcoólicas,
HIV/Aids, violência entre outras que mereçam
ser abordadas, com o envolvimento de professores indígenas
e agentes indígenas de saúde, jovens,
mulheres e outros representantes da comunidade, assim
como a formação de grupos de orientação.
Para as oficinas recomendamos a utilização
da metodologia participativa e problematizadora.
Esta metodologia possibilita que o sujeito da aprendizagem
torne-se participante ativo, que saberá dizer
e interpretar como é o uso de bebidas alcoólicas
na aldeia, na comunidade, na sua casa, na sua vida,
etc. Este tipo de abordagem é imprescindível
para a formulação de estratégias
de intervenção, pois são os próprios
sujeitos da história que deverão reconhecer
o uso de álcool como um problema e vão
sugerir propostas de intervenção para
reduzir os danos causados pela bebida.
2- Implantação de ações
que visem a recuperação, revitalização
e fortalecimento da cultura indígena,
seja através da dança, da música,
de retomada de festas e rituais tradicionais e fomento
para cultura material. Estas ações são
imprescindíveis no fortalecimento da identidade
étnico-cultural desses grupos, pois reafirma
a tradição tanto dentro da própria
sociedade como para a sociedade ocidental.
3- Fomentar e incentivar projetos
que visem a auto-sustentabilidade, que possam
efetivamente impactar sobre a qualidade de vida do grupo.
Estes projetos devem estar ligados a questão
ambiental, a produção de variedades agrícolas,
apicultura, piscicultura e outras formas alternativas.
Um aspecto importante em relação a sustentabilidade
é o apoio e incentivo a ações para
geração de renda a partir da atividade
artesanal, pois a maioria dos grupos indígenas
detém o conhecimento da arte do trançado.
No caso Kaingáng, a implantação
do projeto Kre Kyfgy, voltado para
a produção do artesanato ao mercado formal.
Sobre este projeto falaremos em outro link.
4- A realização de atividades
com as crianças da escola e a introdução
deste tema e outros sobre saúde no currículo
transversal. Os professores devem abordar o problema
das bebidas alcoólicas, partindo da perspectiva
da criança sobre o assunto através de
desenhos, pinturas, textos, redações etc.
A produção deste material poderá
ser utilizada na construção de cartilhas
a serem trabalhadas em sala de aula. No caso dos Kaingáng,
os materiais produzidos através das oficinas,
transformaram em livros e cartilhas, que mostraremos
aqui.
5- Desenvolvimento de práticas
desportivas, envolvendo jovens, no sentido
de orientá-los sobre o problema da bebida alcoólica
e outras drogas;

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